Em 1986 eu conheci o menino José , ele vinha pela avenida , com a cabeça a mil por hora , esquecido em suas memórias ele caminhava , tinha acontecido pela primeira vez , e um misto
de verdades e inconstâncias tomaram conta da sua cabeça , algo estava muito errado , mas as
mentiras e suas necessidades cobriam sua vida de verdades tão inseguras quanto as suas próprias
ilusões .
No bar outra vez , ele bebia , como se cada copo fosse o final da sua tormenta, e cada final
fosse o recomeço de seus delírios , um dia por uma noite inteira no escombro das suas perguntas,
como o cão que ali lhe fazia companhia , o pobre José sentado no meio fio olhava para o alto, via
nas sombras de seus mortos questões tão entorpecidas quanto os vivos que o rodeavam , e mesmo
assim ele escolheu viver , escolheu deixar o óbvio ficar lacrado dentro do saco que a sua imaginação lhe deu de presente.
Era um dia quente , que se tornou uma noite quente , que resultou numa madrugada quente , e
num amanhecer totalmente frio , gelado e sem batimentos cardíacos , dentes cerrados , e olhos
virados , sem vontade nenhuma de voltar à luz.
Em 1986 algumas verdades tão claras apareceram e suas consequências morais tornaram os anos que vieram quase que insuportáveis , os anos de tormenta e dor , a procura de respostas
lacradas a sete chaves .
José que sem sobrenome de fato podia se chamar João , OU QUALQUER NOME QUE soasse classicamente comum num lugar tao comum com pessoas tao comuns , que me faziam
um João quase ninguém acreditar de alguma forma se pudesse ser alguém, de fato, os fatos
eram inevitáveis ao ponto de não serem notados , por quem estava ali o tempo todo.
A intenção de ser fisicamente presente , não tinha nada a ver com a formação da alma
num estágio tão inadequado do espirito ali presente , um menino nunca pode ser um homem , e um homem jamais será um menino , mas quem faz a escolha? DEUS é claro! Porque DEUS tem a estranha mania de colocar na vida dos homens meninos atrapalhados?!
O coração ainda bate , apesar de tanta violência , apesar de ter sido humilhado , e colocado
a prova , de ter sido tentado e jogado fora , o coração ainda bate , a menina humilhada cansada
de ser nada também está ali , está presente e refrigera a alma cansada do menino solitário , um JOSÉ , uma Maria qualquer que era um sub produto de uma relação antiga e cansada , a menina
de olhos verdes rosto cansado , boca rosa , ela tinha respostas para tudo , ela era um pedaço de
dúvida plantada naquele coração cheio de sangue do mais impuro possível .
A noite , o bar , a menina , e a vida toda que viria pela frente , dias de tormenta , ventos fortes , chuvas de sangue , tempestades cheias de más intenções .
E fica a dúvida , e fica a certeza , e ficam as mortes , e as mulheres cheias de HERPES , rondando o caminho , mostrando a direção , tirando o foco , construindo as noites cheias de
vinho barato e luzes que nunca pararam de piscar.
Depois disso vieram os carros , os cheques , as histórias , as casas , as cidades , as mentiras e as verdades , os mortos , e as almas , depois disso vem os sonhos , e os dias de insônia , e ao redor da mesa , somente ratos , cães e o chão sujo mas cheio de sinais.
Depois disso vem a guerra , a venda do pensamento , a chegada ao berço , e falta do sangue , o sangue que nunca foi meu , o sangue que nunca foi seu .
Em 1986 , tudo fez sentido , e o que tem de ser certo , é o que nunca vai ser sentido , é o que nunca foi escrito , é o papel que nunca foi assinado , é a porta que nunca se abriu , é a paz que nunca veio .
Fernando Gimenez

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