Mais um dia com o legado de ISRAEL ,em minhas veias , o sangue sem identificação biológica , correndo pelo asfalto , pelas ruas em plena luz do dia, o que me resta são os cães , caminhando pela passarela trocando dias pelas noites , e vivendo na corda bamba , um pedaço de qualquer coisa serve para matar a fome de quem não come , de quem não vive , de quem sobrevive lendo as matérias vencidas dos jornais de feira .
Os meninos crescem e qualquer hora eles vão perceber a verdade ,e no esquecimento da vaidade vão guardar minha figura deprimente e derrotada , não acredito na morte como solução , mas vejo que a morte é uma grande amiga , que ela anda do meu lado por muito tempo , nas anomalias , nas bactérias e vírus que nasceram e cresceram comigo , nas motocicletas entortadas pela falta de apreço , nos automóveis arrebentados por acaso de mais de um milhão de destinos, a morte minha amiga inseparável , me traz o anuncio da paz num apelo guido pela força de um DEUS , que eu sei , que é o mesmo amigo do anjo sem luz rei das trevas das mentes doentes como a minha.
Não entendo muito de amor , nem sei bem o que é ser amado ou amar , mas pago para ver a anos e anos , e realmente não conheci ele assim tão de perto , e sei que vou deixar para depois , pois eu preciso aprender a morrer, sei que é um processo lento , e nem menos doloroso que os demais .
Compro minha vida a prestação , e pago os juros da insistência da vida , e sem medo vou insistindo em viver , tomando de assalto o lugar de alguns poucos inocentes , que eu sei , que me detestam , que sabem o que se tem e o que se tem de fazer para nada ser ao meu lado.
Acredito no futuro , pois sei que ele é a prova viva da minha loucura , e que os momentos de paz , serão poucos , mesmo eu me deixando ser o que nunca serei
A vida pesa na cabeça dos loucos , e os loucos sabem o seu tempo de validade , a verdade é justa mas nem sempre e linda , e a janela de cada um é o que se tem para ver enquanto não se pode morrer em paz .
Deus , sempre DEUS , um ser lá encima , bem longe de nós , bem além de nossas esperanças , no seu trono e com sua grandeza indiscutível , assiste a metrópole pegar fogo , e seus pequeninos , morrerem espancados em suas casinhas de madeira , em suas casinhas de papelão , DEUS , sempre DEUS , vendo as meninas abortando lixo , e os meninos bebendo química , vendo os pais se entregando nos botecos , e as mães nas ruas se vendendo por nada , ou até por um prato de comida suja caída das mesas da estranha classe A.
Mas mesmo assim eu vou indo , procurando morrer em paz , e acreditando que com isso eu possa ser mais feliz em qualquer lugar , que não seja aqui , que não seja assim , que pareça com nada que eu já tenha visto , assim é a vida , assim é onde eu morro , assim são nossas idéias , nossos caminhos e saídas .
Qualquer dia menos este , eu possa me conhecer , e talvez me aceitar.
Fernando Gimenez

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