Pela janela animada ,ela vê os prédios passando em alta velocidade ,
de uma maneira descompromissada e meio soberba ela analisa o que se passa lá de fora , encostada na porta , de maneira a se deixar jogar pelo balanço da máquina , ela segue , parece que pensa na vida , parece que pensa no destino , parece que ela se gosta muito e contamina o olhar dos demais a sua volta , do lado de fora uma sucessão de acontecimentos mecânicos dão fundo a aquela visão caracterizada , o brilho dos metais no seu braço refletem a sua postura segura fundada numa beleza bem urbana , um aparelho louco ligado a um fio circula pelo seu corpo e presenteia o seus ouvidos com alguma melodia moderna , que com certeza configura aquele corpo, ali encostado naquela porta quase que automática!
Mas como não perceber o mundo do ponto de vista soberbo que aquela visão propicia a nós pobres mortais , naquele momento somos todos expectadores , esperando qualquer reação que faça um novo angulo daquela nobre beleza se prevalecer , ela até tenta fingir que é natural , que como as demais ali , é apenas um exemplo moderno de um homo sapiens feminino que vaga naquela plataforma
de ferro automatizada , mas nós sabemos e temos a plena certeza animal , que ela é diferente e meio sem graça pela admiração exagerada dos senhores ao seu redor , ela acaba aceitando o que a natureza lhe deu como missão , alegrar por alguns minutos a vida dos apressados transeuntes .
E logo quando aquele momento eternizado começa a fazer um certo sentido , no exato momento da passagem do estado mental , onde o normal se confunde ao anormal , onde o sem sentido passa fazer sentido , onde a imaginação começa a nos trair , a voz metálica diz !
-SENHORES PASSAGEIROS! ESTAÇÃO SANTANA ! FAVOR DESCER PELO LADO DIREITO DO TREM !
